Comércio local…Que Estratégia?
Ontem a minha filha estava convidada para uma festinha de aniversário de um amigo, oportunidade para ir ao comércio local em Moimenta da Beira, comprar a prenda para ela levar.
A opção foi duplamente acertada, pois, por um lado pude contribuir para a dinâmica e sobrevivência do comércio local e por outro lado, “provoquei” a discussão acerca do tema, que desencadeou uma interessante, proveitosa e ao mesmo tempo preocupante conversa com a dona da loja em questão. No entanto, muitos outros comerciantes, em diversos outros momentos, também têm manifestado essas mesmas preocupações.
Preocupações que passaram a ser minhas, de tal forma, que me levou a eleger o “comércio local”, como tema da minha nova reflexão, sempre com a preocupação de escrever sobre temas atuais, pertinentes e que possam ser um contributo para uma reflexão alargada, mas sobretudo, um contributo para que se possa evoluir para soluções.
Desde logo, importa situar o que é o comércio local ou tradicional, podendo definir-se como uma forma de comércio de proximidade em locais de pequena/média dimensão num ambiente em que predomina a proximidade entre o cliente e o vendedor. Nos dias de hoje são cada vez menos estes estabelecimentos, assombrados pelas grandes superfícies e centros comerciais.
Mas a verdade é que o comércio tradicional/local é de extrema importância para a dinâmica da economia local e a oportunidade de criação de postos de trabalho, sobretudo, em municípios e territórios com escassa oferta e oportunidades de emprego, como é claramente o caso de Moimenta da Beira.
E portanto, o comércio local deve ser um setor de grande atenção, apoio, acompanhamento, investimento e até estratégico, por parte da ação do poder político local.
A lojista com quem tive oportunidade de conversar, mas também porta-voz de tantos outros colegas do comércio local, manifestou preocupação, tristeza e lamento, pelas dificuldades do setor, provocado pela desertificação e cada vez menos população na rua, fruto da falta de políticas capazes de fixar pessoas e empresas, mas também por se sentir completamente desapoiada pela câmara municipal, não havendo nenhuma política, nem estratégia para o comércio local.
Lamentou ainda, que qualquer cidadão pode abrir o seu próprio negócio, sem qualquer filtro ou acompanhamento por parte da autarquia, mesmo que isso signifique abrir mais uma loja ou espaço comercial, num determinado ramo ou produto, já completamente lotado e em dificuldades.
É preciso trazer para o comércio local criatividade e inovação, dotando-o dos instrumentos, programas financeiros e sistemas de incentivos, que possa proporcionar a criação de novos espaços comerciais que venham cobrir lacunas e trazer nova oferta; estimular e apoiar projetos que visem a modernização e valorização da oferta dos estabelecimentos abertos ao público, através da aposta na inovação e da utilização de formas avançadas de comercialização e que visem a valorização e dinamização da oferta comercial, criando densidade comercial, centralidade, multifuncionalidade e desenvolvimento económico e social.

A qualificação, apoio e inovação do comércio local, significa também valorizar o território, as tradições, a riqueza da nossa história e das nossas gentes, na afirmação de um espírito solidário, empreendedor e de responsabilidade. É ainda uma oportunidade de excelência para promover os nossos recursos e produtos endógenos, associado também ao turismo, que deve assumir-se como um potencial diferenciador.
Não basta “apregoar” em campanha eleitoral que temos de “caminhar juntos”, que temos de “estar unidos”, que queremos ser “reconhecidos pela inclusão”, que queremos exercer “política de proximidade”, mas depois na prática nada acontece, deixamos tudo ao sabor do acaso, em vez de identificar os problemas e assumir as dificuldades, com proatividade, com estratégias, com soluções,….com trabalho. Citando Benjamin Franklin,“Bem feito é melhor que bem dito”
Moimenta da Beira, precisa urgentemente um Plano Estratégico para o seu Desenvolvimento Económico, desenvolvido com a colaboração e a visão integrada de diversas entidades, forças políticas e personalidades, dispostas a pensar o território, pensar estratégias e, acima de tudo, pensar o futuro. A criação de emprego, a captação de investimento, a colaboração ativa com todo o tecido económico local e associações empresariais são, inequivocamente, a principal prioridade.
Se não temos ideias próprias, saibamos pelo menos aprender com boas experiências e boas práticas, implementadas em outros municípios. Se for para melhorar o futuro do município, a vida das pessoas, dos investidores e dos comerciantes, toda a gente agradece e só assim se tem a legitimidade para pedir votos.
Eu tenho o prazer e honra de ser amigo pessoal de uma vereadora do município de La Ferté-sous-Jouarre, uma comuna francesa com cerca de 8236 habitantes, a minha querida amiga e lusodescendente, Isabel Lourenço, que tem à sua responsabilidade os pelouros do comércio e turismo. E logo após ter sido eleita e assumido funções, reuniu com todos os comerciantes locais para os ouvir e tomar nota das propostas, ideias, queixas, desafios, onde abordaram temas importantes para o comércio local, como o estacionamento, sinalética, animação de rua, horários de funcionamento, instalação de novos comércios para preencher lacunas e diversificação da oferta, segurança, acolhimento e receção dos clientes, turismo, feiras semanais e outras, programas e incentivos financeiros, boas práticas, formação, não deixando nenhum tema tabu. Deixou, no entanto, a promessa que seria a primeira de muitas reuniões. Promessa já cumprida, pois, já outras reuniões se seguiram para dar voz e feedback aos comerciantes, para informar o que está a ser feito e informar dos programas e incentivos financeiros existentes e, naturalmente, para manter a proximidade e o diálogo.
E todo este trabalho não foi em vão, bem pelo contrário, pois, o feedback que tenho desta minha amiga vereadora, é que o comércio local e tradicional melhorou substancialmente, os comerciantes estão muito satisfeitos, motivados, a agarrar novos desafios e extremamente gratos.
O que fez a diferença? A diferença reside exatamente nas pessoas, pois, trata-se de uma vereadora, que além de uma pessoa muito dinâmica, proativa, empenhada e responsável, também exerce as suas funções com o coração, vivendo as alegrias e as tristezas da população de La Ferté-sous-Jouarre, tendo conseguido transformar e revitalizar o comércio local.
Política de proximidade, é isto! Não é retórica e discurso político, mas sim, ação e consequência dessa mesma ação.
Termino, partilhando uma citação de Peter Druker, que demonstra claramente onde reside o problema para a ausência de soluções em tantas matérias, onde este tema é disso exemplo,“O problema em nossas vidas não é a ausência de saber o que fazer, mas a ausência de fazê-lo”.


Foi com muito agrado que tive conhecimento e li o texto sobre o comércio local e fiquei a saber que ainda há alguém que se preocupa com este sector.
Sem duvida que há muito que o comercio local é esquecido, mal tratado e ate mesmo humilhado pelos sucessivos governantes locais e mesmo a nível nacional.
Mesmo assim hoje esta muito melhor que há vinte anos. Embora não façam nada ” vale mais não fazer nada que fazer mal, ou neste caso péssimo”, trabalha-se em paz. Sou do tempo em que era obrigado, debaixo de ameaças da autoridade, a fechar as portas durante 30% do mês de dezembro, mês que é o balão de oxigénio para o comercio se manter nos meses seguintes.
Costumo dizer aos amigos que conheci Salazar 20 anos depois do 25 de Abril de 1974, era como uma ditadura concelhia num País dito democrata, mas como disse José Saramago ” o problema desta nossa democracia, é que se fazem coisa muito pouco democráticas democraticamente”.
O que me chocava mais, era a total ausência de oposição na edilidade camararia desse tempo, pois tudo era votado por unanimidade e pensava eu ” será que aquela gente está lá só para receber ao fim do mês??? e á espera que passem os 12 anos para a choruda reforma???
Nessa edilidade quase que “ASSASSINARAM” o comercio local.
Agradeço imenso as suas palavras e valioso contributo. Efetivamente o comércio local é um tema de enorme importância e que mexe com a vida de muita gente, muitas famílias, num município onde as oportunidades não existem, nem tão pouco se luta para a sua existência e portanto, o comércio local é a criação do próprio emprego, ganhando assim uma importância não só económica, mas também social. Só por si, esse facto deveria merecer a atenção e o respeito por parte de quem governa, por parte da autarquia. Na minha reflexão apresento um caso francês onde a autarquia local assumiu o comércio local como uma preocupação e desenvolveu um conjunto de ações estratégicas, concertadamente com os próprios comerciantes e tem tido efeitos muito positivos. Como tenho dito, muitas vezes a solução não está no gasto de milhões, mas sim na ATITUDE. E essa atitude infelizmente tem faltado, neste e em tantos outros temas da vida sócio-económica do nosso município.Sou uma pessoa que está na política por causas, por ideias, por projetos, sobretudo pelas pessoas, e portanto, estou a atento aos diversos sectores que devem merecer a nossa atenção. Infelizmente, este ainda não é o tempo de eu ter a oportunidade de por em prática as minhas ideias e projetos estratégicos para o desenvolvimento e melhor futuro do município, mas até lá, não posso ficar de braços cruzados,continuando a denunciar, alertar e também apresentando soluções, ideias e a minha visão estratégica de futuro. Infelizmente, estamos a ser governados em modo “Gestão Corrente”, sem ideias, sem ambição, sem estratégia, perdendo oportunidades atrás de oportunidades, ficando o município cada vez mais pobre, mais isolado e mais deserto, prejudicando assim, cada vez mais o comércio local, a vida social e económica do município. Durante a última campanha eleitoral autárquica, alertei que a campanha eleitoral e as eleições não são uma época de festas, nem da oportunidade dos amigos, mas sim um momento de enorme importância onde se decide o futuro dos territórios e sobretudo das pessoas…e o voto é efetivamente a grande arma do povo, e portanto, deve ser bem utilizada, engrandecendo a democracia! Um grande abraço e desejo de muitos sucessos!
Concordo plenamente com tudo o que foi dito a respeito do comércio local!!
E acrescentava que conheço perfeitamente a realidade francesa, e não é por nada que a França é um grande país . Mas sim pela mentalidade do francês que actualmente compra muito do que é produzido e vendido em França.
Esse tipo de atitude foi se cultivando localmente onde os responsáveis das entidades municipais,associações culturais, desportivas, etc…. sempre tiveram o cuidado de recorrer aos serviços da região.
O cidadão foi assim aprendendo a conhecer e dar o devido valor a todo o comércio e serviços que tem a sua volta!
Ainda temos um longo caminho para percorrer mas por algum lado devemos começar! É um pouco a ideia do vá para fora cá dentro.
Sempre que posso, o comércio local é a minha primeira opção!
Obrigado pelas suas palavras e sobretudo pelo seu valioso contributo, pois, concordo em absoluto com tudo o que acrescenta. E são efetivamente os bons exemplos, as boas práticas e as boas estratégias que devem servir de exemplo e implementar no terreno, sobretudo nos municípios do interior onde o comércio local tem um impacto económico, mas também social, pois, é a criação do próprio emprego, onde outras oportunidades de emprego escasseiam. Infelizmente, o nosso poder local tem-se mantido à margem do problema, da realidade e sobretudo da ação, no sentido de valorizar, dimensionar, apoiar, divulgar, criar dinâmicas, implementar uma estratégia concertada com os comerciantes, tal como sugiro na minha reflexão e que o Carlos Mendes complementou. Tenho pena este ainda não ser o momento e a oportunidade de eu poder implementar as minhas ideias e a minha visão estratégica para o município, mas enquanto isso não acontece, não fico de braços cruzados, vou denunciando, alertando e apresentando as minhas ideias, nos diversos temas que tocam o dia a dia da vida das pessoas….onde por vezes a solução não está no gasto de milhões, mas está na ATITUDE! Grande abraço e desejo de felicidades e muito sucesso